quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pode ser impressão nossa

Chegámos a Bali, de novo. Temos aqui ainda um dia e uma noite para "comer, orar e amar" antes de regressar a Portugal.

Depois do livro autobiográfico de Elisabeth Gilbert, e do filme homónimo, são muitas as mulheres turistas sozinhas que vêm "amar" para Ubud, como pudemos constatar. Pode até ser impressão nossa...mas é como se muitos clones da Júlia Roberts se passeassem de bicicleta pelas ruas, com as suas roupas étnicas, jantassem sentadas em largas almofadas, meditativas e sós, orassem nos templos hindus, sensuais e transcendentes.

Antes de largar a Indonésia tivemos o nosso último encontro com o resto do mundo na área dos campos de arroz e de mais templos, tudo classificado como património da humanidade pela UNESCO. Pois, assim sendo, as infra-estruturas para acolher o resto do mundo estavam lá, restaurantes, hotéis, souvenirs... E, pode até ser impressão nossa, mas...será que o cultivo do arroz é mesmo porque tem de se comer o precioso cereal ou existe para manter a paisagem-galinha dos ovos de ouro? É que o ébola que o turismo é opera velozes mudanças no sentido de retirar a verdade das coisas, e é bastante provável (e justo!) que para manter o imenso esforço de trabalhar os arrozais os agricultores recebam uma subvenção... Caso contrário, seria mais proveitoso comprar o arroz industrial à China... Ou não?

Tivemos também a sorte de nos conseguirmos infiltrar numa verdadeira luta de galos (quando digo verdadeira quero dizer que as únicas turistas que lá estavam éramos nós).
 As lutas de galos são o desporto tradicional balinês que reúne mais adeptos... Até porque também decorre nos templos, em recintos devidamente apetrechados para este espetáculo-jogo que movimenta tanto dinheiro.
Na verdade, só os três primeiros combates são considerados ritual sagrado, sendo que o valor pecuniário das apostas reverte para o templo. A partir do quarto confronto, tudo se inverte. O jogo passa a ser ilegal... E pode até ser impressão nossa, mas... Apareceram vários polícias fardados no ringue, cada um de sua vez, em ondas sucessivas, com a respetivas caras de maus que se desvaneciam assim que parte das notas recolhidas pelo mestre de cerimónias transitava para as suas mãos. 
E todo o frenesim continuava, atingindo o seu auge quando os proprietários dos dois galos contendores os acirravam, um frente ao outro sem os largarem... A assistência, de dedos em vitória no ar, gritavam a cor do animal em que cada um tinha apostado, 
- Vermelho, vermelho, vermelho!
-Branco, branco, branco! 
num som único como uma maré, que se levantava até ao tumulto quando os animais eram largados... Para logo de seguida terminar com o golpe certeiro de um dos galos fulminando o seu opositor. A morte é mais rápida porque os espigões das patas são substituídos por pequenas facas afiadas.













E depois de dormirmos na casa da nossa última família indonésia, com o seu pátio interior, templos, árvores de Santo António com as flores das oferendas e do incenso que perfuma as ruas, fomos para a China, Guengzou, no Cantão. Ali tínhamos pensado tirar uma fotografia juntas, em jeito de terminar as Viagens à Conchichina. Mas a ligação da Nádia para Londres era já, já, e eu, que pensava em mil e uma maneiras de me esgueirar para ir espreitar o Cantão... recebo a oferta do aeroporto para ficar alojada num hotel enquanto esperava a minha ligação para Amsterdão, a 18h de distância.

E foi assim que Guengzou se tornou num hotel belíssimo, com inusitadas iguarias, a partir do qual fiz um périplo para "cheirar" a China. Não fui sozinha, não, fiz três amigos, viajantes solitários que tiveram a mesma sorte que eu: o David, alpinista profissional, norte americano, a caminho do Tibete, onde ia libertar um amigo há um ano pendurado de uma escarpa, congelado, morto numa derrocada. 
- Alguém teria de cortar a corda para lhe ser dado um enterro digno.
A Fiore, de Santiago do Chile, viajante profissional em trânsito para a Nova Zelandia. Trabalha nos países onde arranja emprego e amealha para voltar a viajar. E Nofal, de 25 anos, indonésio, primeira vez que sai do seu pais, rumo à Alemanha, onde vai fazer um curso para trabalhar a bordo de navios de cruzeiro.
De notar que não encontrámos quem falasse inglês, tudo se dizia e escrevia em cantonês... Pelo que, já se está a ver, não havia neste bocadinho de China nenhum resto do mundo! E... pode até ser impressão minha, mas não vi nenhum dos cidadãos chineses com quem nos fomos cruzando durante estas 5 semanas de viagem pelo Sri Lanka, Singapura, Malásia, Tailândia e Indonésia, a bordo dos seus belos iates, nas free shops dos 17 aeroportos por onde passámos, a comprarem os melhores perfumes, jóias e roupas ... Pode ser impressão minha...


Hotel em Guangzou, Cantão, China





(Afinal havia umas palavritas em inglês...)



Aqui, nesta loja, tivemos de mostrar cada um a sua língua, a qual foi atentamente examinada por uma especialista, e em seguida, julgamos que em conformidade com o resultado desse exame, foi-nos servido o chá apropriado, pessoal e intransmissível.


Até à próxima viagem!









Vulcões e outros fantasmas

Continuamos a nossa viagem pelo interior da ilha das Flores, agora entre a sinuosa estrada que liga Ruteng a Labuanbajo. Sempre os vulcões, os campos de arroz em filigrana e as nossas senhoras e os jesus cristos. 

A propósito de tanta religiosidade, conta-se na ilha que, aquando da visita do Papa João Paulo II às Flores, há dez anos, foi à região de Sikka, por ter sido o primeiro local do sudeste asiático a ser evangelizado. Todos estavam entusiamadissimos, sobretudo a família Da Silva, bastião do catolicismo primevo na ilha. Como relatámos no post " Os Portugueses de Sikka", esta família é a guardiã das jóias oferecidas ao primeiro rajá de Sikka aquando da sua conversão ao catolicismo, no séc XVI, altura em que lhe foi atribuído o nome de Don Alexius Aleixo Ximenez Da Silva.

Ora, passados 500 anos, a sua mais ilustre descendente foi designada para oferecer ao Papa uma lembrança do povo das Flores, durante a cerimónia de recepção ao sumo pontífice, a decorrer no campo de futebol de Maumere. Pois a emoção da senhora foi tanta - dir-se-ia que estava a entregar o presente diretamente nas mãos de Deus - que caiu fulminada no chão. Ataque cardíaco. E não foram poucos os que, naquela enorme assembleia, viram a sua alma a elevar-se e a entrar direitinha no reino dos céus.

Quanto aos campos de arroz: são filigrana, sim, a mesma filigrana que a Nádia sempre diz
- Ai! Mas esta jóia é de filigrana portuguesa...
Provavelmente até estão relacionadas, as filigranas de prata de lá e as de cá. Já os campos de arroz serão, quiçá, mais trabalhosos que os nossos (já quase inexistentes) campos de trigo.
Aqui apresentamos uma imagem dos arrozais com a conformação de teias de aranha. Planificar tal geometria, manter levadas, plantar, mondar, colher uma a uma cada planta do arroz...

E os vulcões? Há vários a emitir lava, e conhecemos guias que se preparavam para levar grupos de fotógrafos europeus a acampar no sopé de alguns desses vulcões a extravasar pedra em fusão. Nós, depois do susto dos dragões de Komodo, preferimos as manifestações de vulcanismo secundário, por isso andámos, andámos na selva, por vezes a pé, por vezes de mota, até alcançarmos quedas de água altíssimas e copiosas, feitas das nascentes termais borbulhantes, com ecossistemas aquáticos sulfurosos e escorregadios...

E chegámos, enfim, ao mar...Labuanbajo. O paraíso perdido, o porto (Labuan) para onde os habitantes de Badjo, na ilha de Sulawesi (em português as Celebes) imigraram, tendo direito a metade do topónimo.
O resto do mundo está agora a descobrir estas colinas onde, de um lado e do outro, se vêem dezenas de ilhas, cada uma com o seu próprio desenho de recifes de coral. Daqui saem embarcações  para a pesca, para passeio, para visitar as ilhas de Rinca e Komodo...mais os seus dragões.
E porque os muçulmanos das Celebes que cá estão mais os outros todos que vêm de toda a Indonésia para acudir às necessidades turísticas ainda não afinaram o seu modus operandi, é que a nossa vista do hotel é aquela que apresentamos. À noite, até, penso que os passos que escutávamos no teto seriam do famoso rato-gigante-de-flores, animal endémico que nunca tivémos o prazer de encontrar cara a cara. Ou, se calhar, eram as cegonhas do passado, cuja altura equivaleria à de um homem adulto... Ou pior: o Homo floresiensis que se tornou fantasma e saiu da sala onde o fecharam no Centro Indonésio de Arqueologia,  lá em Jacarta, para voltar à sua terra natal... Eu explico: 

Em 2003 investigadores australianos e indonésios descobriram na gruta de Liang Bua um esqueleto de um hominídeo fêmea, com um metro de altura, a que amorosamente se chama o Hobbit das Flores, e cientificamente Homo floresiensis. Os autores da descoberta afirmam ser uma representante de uma nova espécie, com características de Australopithecus, de Homo Erectus e de homem moderno, aliás, com quem partilhou as Flores durante algum tempo, até ser extinto (talvez por uma grande erupção vulcânica há 12 000 anos). 

Mas porque a ciência se faz de discussão, e porque não há verdades absolutas, há outros cientistas que, analisada a descoberta (às vezes até, segundo apurei, com visitas não autorizadas ao local) são de opinião que a pequena Hobbit é apenas uma Homo sapiens com Síndroma de Down ou com microcefalia... E a discussão continua...







Sempre impressionantes, estas figueiras estranguladoras...


Aqui não deu para tomar banho, senão teríamos guisado de TorresTapadinhas à moda das Flores


Aqui a Nádia está feliz a tirar-me fotografias enquanto eu luto pela vida, ao ser arrastada por uma corrente quentíssima e fortíssima de uma fonte termal que alimenta algas escorregadiíssimas...


Aqui a Nádia está feliz porque provou arac e gostou!


Aqui a Nádia está infeliz porque o pequeno almoço era outra vez arroz com imenso picante e duas rodelas de pepino... E o café não era expresso...


Campos de arroz em teia de aranha


O limpo pôr do sol em Labuanbajo, enquanto o resto do mundo ainda não construiu muita coisa, e muita casa e muito hotel nesta baía.


Os muçulmanos vindos de Badjo, nas Celebes, para Labuanbajo... Pescam e grelham o peixe que vemos naquele bailar colorido dos corais... e é tão bom! Bom mas bom!


A vista do nosso hotel...





Aqui a Nádia está feliz porque conseguiu ensinar o nosso guia Fian a nadar... em apenas uma manhã! 










segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Flores de Lava

O Dr Roger há trinta anos que estuda uma das 14 tribos da ilha Palu'é. Assim que as suas aulas de antropologia numa universidade suíça permitem
 - Venho até ao meu povo.
Vem de avião até à ilha das Flores, zarpa do porto de Maumere no seu pequeno barco e depois sobe a pé o vulcão até à aldeia
- As comunidades geralmente escolhem sítios altos, protegem-se dos tsunamis... Eu é que já estou velho para tanto andar!
Tem a sua casa de bambu e colmo, faz o seu arac
- O arac é uma aguardente da seiva da palmeira. Cortam-se os frutos jovens pendentes de um ramo lateral e coloca-se um tronco de bambu a recolher a seiva que brota desamparada. Ao fim do dia, com o calor, já há muita bebida recolhida - líquido ainda mais precioso numa ilha sem água potável - ..e já fermentada. Bebemo-la assim, ou evaporamos e depois condensamos o vapor, para obter o arac.

Aquando da ultima erupção do Palu'é o Dr Roger estava na Suíça e recebeu um telefonema
- Venha. Ajude-nos a aplacar a fúria do vulcão.
O Dr veio imediatamente. Já todas as televisões e todos os fotógrafos de vulcões do mundo zuniam de volta do Palu'é. 
-Muitos búfalos de água serão precisos.
disse o Dr. E assim se fez. Reuniram-se todos os búfalos da ilha, Toda a comunidade se vestiu de gala e muito sangue foi derramado para satisfação do Palu'é.
No termo da cerimónia o vulcão parou. A terra deixou de tremer, a lava deixou de descer pelas vertentes. Não caíram mais cinzas sobre as casas esventradas.
-Conhece alguma técnica ou magia ou ciência ocidental que consiga parar um vulcão?
Perguntou-me o Dr Roger.
- Eu fui apenas um veículo da vontade dos ancestrais. O último chefe depositou em mim o conhecimento de como realizar esta cerimónia. E agora eu terei de ensiná-la ao seu filho. 

-Nós, os de Palu'é, acreditamos que quando o vulcão se ativa é porque no clã do chefe houve incesto. 
A lava flui desde o interior da terra, atravessa a base do vulcão, sobe à chaminé e volta de novo ao interior da terra, assim se passa com as pessoas, com o movimento do seu sangue, quando se unem homem e mulher, ainda mais se forem do clã do chefe, pessoas e vulcão são um só.
Ele e ela , sendo irmãos, assim unidos, o circuito de sangue é interrompido na cabeça, por isso se  rompe a lava na cratera do vulcão. 
Por isso todos sabemos que houve incesto e que foi praticado pelo filho do chefe com a sua irmã.

Pior agora, porque dei ao filho do chefe o meu dinheiro para reconstruir as casas destruídas pela cinza e pagar os ordenados das enfermeiras que deixei a cargo da pequena clínica ( a medicina chinesa conjugada com a antropologia resulta como uma benção). Confiei nele e nas palavras que me enviava por email a relatar as melhorias nas casas e na clínica. Chego cá e o que vejo? Construiu uma casa luxuosa aqui em Maumere. E as pessoas no Palu'é continuam sem casa e doentes. Por isso tenho reuniões agendadas com os chefes das outras 13 tribos. São eles que farão a justiça.

Depois da cerimónia que aplacou o vulcão, os habitantes desta tribo ficaram ainda mais próximos da sua tradição, e não querem deixar a terra para ir morar em campos de refugiados onde contraem tifo e tuberculose. Ora o governo regional das Flores e o bispo, sem desalojados do vulcão, podem ver reduzidos os financiamentos de Jacarta e das Cáritas para o realojamento das populações em Maumere, coisa que não querem... E por isso, eu, que estou a ajudar a desertificar os campos dos refugiados aqui em Maumere, sou persona non grata...
E agora vou para o quarto do hotel que os mosquitos estão a chegar.



No caminho entre Maumere e Ende encontrámos a Praia das Pedras Azuis!




Um café (não expresso) e ao longe mais alguns vulcões ativos como o Palu'é


Na floresta de bambus gigantes


Subida para recolher a seiva da palmeira, que bebemos, e que tem um paladar doce e perfumado


Aqui se destila a seiva da palmeira. No findar dos tubos, pinga o arac. Esta destilaria é explorada por uma comunidade oriunda da ilha de Sumba (outrora Ilha da Madeira), a sul das Flores.


Está senhora está a fazer empreita com palmeira, como nós fazemos, a diferença é que no Algarve utilizamos a palmeira anã.


Mais um fabuloso ikat, com motivos atribuídos à herança portuguesa


Praia de Ende, cidade muçulmana das Flores.  Ao longe Pulau Ende, a ilha onde chegaram os portugueses em 1560 e fizeram muitos conversos, à sombra da cruz de Cristo. Nela ainda se observam os restos da fortaleza construída pelo frade dominicano Simão Pacheco, em mau estado de conservação na sequência de um incêndio deflagrado pelo amor entre um padre, uma nativa e o capitão do forte...

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Aldeias Ngada, matriarcado das Flores


Bela, Luba e Bena. São aldeias da cultura Ngada, nos arredores da cidade de Bajawa, centro oeste da ilha das Flores, Indonésia. São raras e belas estas irmãs, em todos os aspetos. 

Os Ngada são sociedades matriarcais e, neste caso concreto, são uxorilocais, ou seja, os recém-casados instalam-se em casa da família da esposa (do latim uxor=esposa). A este propósito, assistimos a discussões entre Fian, o nosso guia, de Bena, e o motorista, de Maumere,
- Como podes aceitar, sendo homem, sendo Saca-Pu, ir viver para a casa da tua mulher, deixando a tua aldeia? E como aceitas que as mulheres dancem enquanto os homens estão a cozinhar?
O dito não é para ser entendido à letra, é uma das muitas anedotas das culturas vizinhas, onde, por sinal, se falam línguas distintas (de facto, cada região tem uma ou mais línguas, por isso o bahasa indonésio, ensinado nas escolas, mais do que a língua oficial é uma necessidade para haver comunicação no país).
- Respeitamos e repetimos os ensinamentos dos nossos ancestrais. De qualquer forma, os homens continuam a ser a figura central,
disse Fian
- sempre que é necessário discutir assuntos de bens, por exemplo, não é a mulher, dona da casa, quem fala; o seu irmão é que deverá chegar à fala com o seu marido,
E continuou,
- É grande honra ser Saca-Pu,
(Saca-Pu designa o primeiro casal que encabeça o clã, e mora na casa que tem o símbolo de uma casinha no topo do telhado; o casal secundário do mesmo clã é o Saca-Lobo, e mora na casa que tem o símbolo de um homem no topo do telhado. Os Saca-Pu e Saca-Lobo da atualidade são os descendentes dos dois casais que fundaram o clã e que para isso realizaram um ritual: trouxeram uma determinada árvore sagrada da montanha, sendo que o casal Saca-Pu carregou o tronco na zona da raiz e que o casal Saca-Lobo carregou a outra extremidade, enquanto os restantes membros do clã acompanhavam, cantando e dançando, a jornada. Uma vez no local escolhido para a implementação do clã, é colocado o tronco no chão, aprimorado com um chapéu de colmo, ficando como totem masculino, o Ngadu; em frente é construído o totem feminino, em forma de casa, o Bhaga. Este processo termina com o sacrifício de um búfalo por cada família do novo clã e por cada família dos convidados da cerimónia. As aldeias têm tantos clãs quantos pares de totens colocados no seu centro)
- Bem, dizia eu, na qualidade de Saca-Pu, cabe-me a mim matar o búfalo no Ngadu, ... Mas como não domino a arte, simulo com uma faca na garganta do animal, e depois é que um amigo fará o gesto que concretizará o sacrifício, de forma a permitir que o sangue seja jorrado e fertilize a terra.

As aldeias são circulares, não é possível construir uma casa atrás da outra. Todas estão viradas para o terreiro, onde dominam os pares de totens e estão os túmulos dos mortos, com imagens de Cristo e flores, altares com oferendas e frutos a secar. Vimos aldeias com 3 , 6 ou 9 pares de totens. As casas são habitação também dos antepassados, por isso são sagradas, e sempre que se quer fazer alguma alteração, até mesmo na decoração do interior, é necessário pedir autorização aos ancestrais, e realizar nova cerimónia com sacrifício de animais.
-Porcos?
-Sim, e galinhas. Mas se for reconstrução deverá ser um búfalo... Colocamos as queixadas e os cornos dos búfalos na entrada das casas. Eu tenho todos, desde os primeiros animais sacrificados aquando do nascimento do meu clã.
-Hoje em dia há novos clãs?
-Não... Só se alguém tiver muito dinheiro que consiga adquirir uma porção de floresta, noutro local, que consiga suportar o modo de vida das pessoas desse novo clã, o arroz, o milho, os cocos, a caça, o cravinho da Índia...
-E os cães que vimos?
-São animais de estimação, mas são também sacrificados nas cerimónias, sobretudo para reuniões de família.

Nos percursos pela floresta até às aldeias, onde o maior perigo não é dar de caras com um tapir furioso mas sim sucumbir após o impacto de um coco a alta velocidade vindo lá das alturas, encontrávamos algo intrigante: várias nossas senhoras, floridas, cuidadas, nos seus nichos de basalto.
Pois bem: o culto Mariano existe, as práticas animistas estão mescladas com o catolicismo.
Estas aldeias são católicas graças aos missionários que há 500 anos calcorrearam as Flores de vulcões vestidas! 

E em cada casa, formada por três dependências, é na parte do meio, onde está a cozinha e onde dormem os hóspedes, que estão imagens da Nossa Senhora de Fátima ao centro, e outras de Jesus Cristo, a par dos símbolos do galo
- Porque temos de trabalhar com os primeiros cantares do dia,
do cavalo
-Para sermos livres e determinados
do búfalo
-Para nos lembrarmos de respeitar quem fertiliza a terra com o seu sangue.




Os espantosos arrozais, em socalcos, aproveitando a descida da água por gravidade





Iniere, um dos 190 vulcões ativos da Indonésia... Este conhecemo-lo bem, ficámos alojadas em Bajawa, no outro flanco, no hotel Edelweiss, a 1200 metros de altitude. O nome do hotel não é uma inspiração fortuita - é que a flora das Flores inclui está maravilhosa flor, que eu julgava ser apenas dos Alpes e do frio...(Teria sido a Heidi?)


Símbolo dos Saca-Lobo


Símbolo dos Saca-Pu


Um Ngadu em primeiro plano, no centro da aldeia; ao fundo, vários Bhaga.












E foi por este cravinho da Índia que tanto sangue se derramou nas Índias Orientais Portuguesas... O cravo-da-índia (Syzygium aromaticum L.) pertence à família das mirtáceas, fruto de uma árvore de grande porte, que pode atingir até 15 metros de altura e durar mais de cem anos. Por isso vimos muita gente empoleirada, a colhê-lo, periclitante... segundo o que nos disseram, às vezes caem, lá das alturas...




Aldeia de Bena, vista do santuário de Nossa Senhora de Fátima.








Os clãs matriarcais de Ngada praticam os costumes animistas, entre eles o do sacrifício de animais, no seio de um forte catolicismo. E é assim que Flores é a única ilha católica do maior pais muçulmano do mundo.