quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Aldeias Ngada, matriarcado das Flores


Bela, Luba e Bena. São aldeias da cultura Ngada, nos arredores da cidade de Bajawa, centro oeste da ilha das Flores, Indonésia. São raras e belas estas irmãs, em todos os aspetos. 

Os Ngada são sociedades matriarcais e, neste caso concreto, são uxorilocais, ou seja, os recém-casados instalam-se em casa da família da esposa (do latim uxor=esposa). A este propósito, assistimos a discussões entre Fian, o nosso guia, de Bena, e o motorista, de Maumere,
- Como podes aceitar, sendo homem, sendo Saca-Pu, ir viver para a casa da tua mulher, deixando a tua aldeia? E como aceitas que as mulheres dancem enquanto os homens estão a cozinhar?
O dito não é para ser entendido à letra, é uma das muitas anedotas das culturas vizinhas, onde, por sinal, se falam línguas distintas (de facto, cada região tem uma ou mais línguas, por isso o bahasa indonésio, ensinado nas escolas, mais do que a língua oficial é uma necessidade para haver comunicação no país).
- Respeitamos e repetimos os ensinamentos dos nossos ancestrais. De qualquer forma, os homens continuam a ser a figura central,
disse Fian
- sempre que é necessário discutir assuntos de bens, por exemplo, não é a mulher, dona da casa, quem fala; o seu irmão é que deverá chegar à fala com o seu marido,
E continuou,
- É grande honra ser Saca-Pu,
(Saca-Pu designa o primeiro casal que encabeça o clã, e mora na casa que tem o símbolo de uma casinha no topo do telhado; o casal secundário do mesmo clã é o Saca-Lobo, e mora na casa que tem o símbolo de um homem no topo do telhado. Os Saca-Pu e Saca-Lobo da atualidade são os descendentes dos dois casais que fundaram o clã e que para isso realizaram um ritual: trouxeram uma determinada árvore sagrada da montanha, sendo que o casal Saca-Pu carregou o tronco na zona da raiz e que o casal Saca-Lobo carregou a outra extremidade, enquanto os restantes membros do clã acompanhavam, cantando e dançando, a jornada. Uma vez no local escolhido para a implementação do clã, é colocado o tronco no chão, aprimorado com um chapéu de colmo, ficando como totem masculino, o Ngadu; em frente é construído o totem feminino, em forma de casa, o Bhaga. Este processo termina com o sacrifício de um búfalo por cada família do novo clã e por cada família dos convidados da cerimónia. As aldeias têm tantos clãs quantos pares de totens colocados no seu centro)
- Bem, dizia eu, na qualidade de Saca-Pu, cabe-me a mim matar o búfalo no Ngadu, ... Mas como não domino a arte, simulo com uma faca na garganta do animal, e depois é que um amigo fará o gesto que concretizará o sacrifício, de forma a permitir que o sangue seja jorrado e fertilize a terra.

As aldeias são circulares, não é possível construir uma casa atrás da outra. Todas estão viradas para o terreiro, onde dominam os pares de totens e estão os túmulos dos mortos, com imagens de Cristo e flores, altares com oferendas e frutos a secar. Vimos aldeias com 3 , 6 ou 9 pares de totens. As casas são habitação também dos antepassados, por isso são sagradas, e sempre que se quer fazer alguma alteração, até mesmo na decoração do interior, é necessário pedir autorização aos ancestrais, e realizar nova cerimónia com sacrifício de animais.
-Porcos?
-Sim, e galinhas. Mas se for reconstrução deverá ser um búfalo... Colocamos as queixadas e os cornos dos búfalos na entrada das casas. Eu tenho todos, desde os primeiros animais sacrificados aquando do nascimento do meu clã.
-Hoje em dia há novos clãs?
-Não... Só se alguém tiver muito dinheiro que consiga adquirir uma porção de floresta, noutro local, que consiga suportar o modo de vida das pessoas desse novo clã, o arroz, o milho, os cocos, a caça, o cravinho da Índia...
-E os cães que vimos?
-São animais de estimação, mas são também sacrificados nas cerimónias, sobretudo para reuniões de família.

Nos percursos pela floresta até às aldeias, onde o maior perigo não é dar de caras com um tapir furioso mas sim sucumbir após o impacto de um coco a alta velocidade vindo lá das alturas, encontrávamos algo intrigante: várias nossas senhoras, floridas, cuidadas, nos seus nichos de basalto.
Pois bem: o culto Mariano existe, as práticas animistas estão mescladas com o catolicismo.
Estas aldeias são católicas graças aos missionários que há 500 anos calcorrearam as Flores de vulcões vestidas! 

E em cada casa, formada por três dependências, é na parte do meio, onde está a cozinha e onde dormem os hóspedes, que estão imagens da Nossa Senhora de Fátima ao centro, e outras de Jesus Cristo, a par dos símbolos do galo
- Porque temos de trabalhar com os primeiros cantares do dia,
do cavalo
-Para sermos livres e determinados
do búfalo
-Para nos lembrarmos de respeitar quem fertiliza a terra com o seu sangue.




Os espantosos arrozais, em socalcos, aproveitando a descida da água por gravidade





Iniere, um dos 190 vulcões ativos da Indonésia... Este conhecemo-lo bem, ficámos alojadas em Bajawa, no outro flanco, no hotel Edelweiss, a 1200 metros de altitude. O nome do hotel não é uma inspiração fortuita - é que a flora das Flores inclui está maravilhosa flor, que eu julgava ser apenas dos Alpes e do frio...(Teria sido a Heidi?)


Símbolo dos Saca-Lobo


Símbolo dos Saca-Pu


Um Ngadu em primeiro plano, no centro da aldeia; ao fundo, vários Bhaga.












E foi por este cravinho da Índia que tanto sangue se derramou nas Índias Orientais Portuguesas... O cravo-da-índia (Syzygium aromaticum L.) pertence à família das mirtáceas, fruto de uma árvore de grande porte, que pode atingir até 15 metros de altura e durar mais de cem anos. Por isso vimos muita gente empoleirada, a colhê-lo, periclitante... segundo o que nos disseram, às vezes caem, lá das alturas...




Aldeia de Bena, vista do santuário de Nossa Senhora de Fátima.








Os clãs matriarcais de Ngada praticam os costumes animistas, entre eles o do sacrifício de animais, no seio de um forte catolicismo. E é assim que Flores é a única ilha católica do maior pais muçulmano do mundo.





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