Continuamos a nossa viagem pelo interior da ilha das Flores, agora entre a sinuosa estrada que liga Ruteng a Labuanbajo. Sempre os vulcões, os campos de arroz em filigrana e as nossas senhoras e os jesus cristos.
A propósito de tanta religiosidade, conta-se na ilha que, aquando da visita do Papa João Paulo II às Flores, há dez anos, foi à região de Sikka, por ter sido o primeiro local do sudeste asiático a ser evangelizado. Todos estavam entusiamadissimos, sobretudo a família Da Silva, bastião do catolicismo primevo na ilha. Como relatámos no post " Os Portugueses de Sikka", esta família é a guardiã das jóias oferecidas ao primeiro rajá de Sikka aquando da sua conversão ao catolicismo, no séc XVI, altura em que lhe foi atribuído o nome de Don Alexius Aleixo Ximenez Da Silva.
Ora, passados 500 anos, a sua mais ilustre descendente foi designada para oferecer ao Papa uma lembrança do povo das Flores, durante a cerimónia de recepção ao sumo pontífice, a decorrer no campo de futebol de Maumere. Pois a emoção da senhora foi tanta - dir-se-ia que estava a entregar o presente diretamente nas mãos de Deus - que caiu fulminada no chão. Ataque cardíaco. E não foram poucos os que, naquela enorme assembleia, viram a sua alma a elevar-se e a entrar direitinha no reino dos céus.
Quanto aos campos de arroz: são filigrana, sim, a mesma filigrana que a Nádia sempre diz
- Ai! Mas esta jóia é de filigrana portuguesa...
Provavelmente até estão relacionadas, as filigranas de prata de lá e as de cá. Já os campos de arroz serão, quiçá, mais trabalhosos que os nossos (já quase inexistentes) campos de trigo.
Aqui apresentamos uma imagem dos arrozais com a conformação de teias de aranha. Planificar tal geometria, manter levadas, plantar, mondar, colher uma a uma cada planta do arroz...
E os vulcões? Há vários a emitir lava, e conhecemos guias que se preparavam para levar grupos de fotógrafos europeus a acampar no sopé de alguns desses vulcões a extravasar pedra em fusão. Nós, depois do susto dos dragões de Komodo, preferimos as manifestações de vulcanismo secundário, por isso andámos, andámos na selva, por vezes a pé, por vezes de mota, até alcançarmos quedas de água altíssimas e copiosas, feitas das nascentes termais borbulhantes, com ecossistemas aquáticos sulfurosos e escorregadios...
E chegámos, enfim, ao mar...Labuanbajo. O paraíso perdido, o porto (Labuan) para onde os habitantes de Badjo, na ilha de Sulawesi (em português as Celebes) imigraram, tendo direito a metade do topónimo.
O resto do mundo está agora a descobrir estas colinas onde, de um lado e do outro, se vêem dezenas de ilhas, cada uma com o seu próprio desenho de recifes de coral. Daqui saem embarcações para a pesca, para passeio, para visitar as ilhas de Rinca e Komodo...mais os seus dragões.
E porque os muçulmanos das Celebes que cá estão mais os outros todos que vêm de toda a Indonésia para acudir às necessidades turísticas ainda não afinaram o seu modus operandi, é que a nossa vista do hotel é aquela que apresentamos. À noite, até, penso que os passos que escutávamos no teto seriam do famoso rato-gigante-de-flores, animal endémico que nunca tivémos o prazer de encontrar cara a cara. Ou, se calhar, eram as cegonhas do passado, cuja altura equivaleria à de um homem adulto... Ou pior: o Homo floresiensis que se tornou fantasma e saiu da sala onde o fecharam no Centro Indonésio de Arqueologia, lá em Jacarta, para voltar à sua terra natal... Eu explico:
Em 2003 investigadores australianos e indonésios descobriram na gruta de Liang Bua um esqueleto de um hominídeo fêmea, com um metro de altura, a que amorosamente se chama o Hobbit das Flores, e cientificamente Homo floresiensis. Os autores da descoberta afirmam ser uma representante de uma nova espécie, com características de Australopithecus, de Homo Erectus e de homem moderno, aliás, com quem partilhou as Flores durante algum tempo, até ser extinto (talvez por uma grande erupção vulcânica há 12 000 anos).
Mas porque a ciência se faz de discussão, e porque não há verdades absolutas, há outros cientistas que, analisada a descoberta (às vezes até, segundo apurei, com visitas não autorizadas ao local) são de opinião que a pequena Hobbit é apenas uma Homo sapiens com Síndroma de Down ou com microcefalia... E a discussão continua...
Sempre impressionantes, estas figueiras estranguladoras...
Aqui não deu para tomar banho, senão teríamos guisado de TorresTapadinhas à moda das Flores
Aqui a Nádia está feliz a tirar-me fotografias enquanto eu luto pela vida, ao ser arrastada por uma corrente quentíssima e fortíssima de uma fonte termal que alimenta algas escorregadiíssimas...
Aqui a Nádia está feliz porque provou arac e gostou!
Aqui a Nádia está infeliz porque o pequeno almoço era outra vez arroz com imenso picante e duas rodelas de pepino... E o café não era expresso...
Campos de arroz em teia de aranha
O limpo pôr do sol em Labuanbajo, enquanto o resto do mundo ainda não construiu muita coisa, e muita casa e muito hotel nesta baía.
Os muçulmanos vindos de Badjo, nas Celebes, para Labuanbajo... Pescam e grelham o peixe que vemos naquele bailar colorido dos corais... e é tão bom! Bom mas bom!
A vista do nosso hotel...
Aqui a Nádia está feliz porque conseguiu ensinar o nosso guia Fian a nadar... em apenas uma manhã!


















que lindas! já não vinha ao blog há uns tempos e pensei - deixa cá ver se elas já voltaram ou como andam as viagens à conchnchina! que saudades! que lindas! agora tenho de pôr a leitura em dia lá para tráz! epá essa do arroz ao pequeno almoço é que não está com nada! não se arranjam uns corn flakes nem nada? :P
ResponderEliminarNádia: está giro o cabelo loiro! :)
Nádia, só tu para ensinares o guia a nadar! :) Boa!
ResponderEliminarDe uma sensibilidade jornalística invejável, incluindo alargar os conhecimentos pelo mundo fora, viajem, férias, impressionante continue.
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