domingo, 24 de agosto de 2014

Os Portugueses de Sikka

Voámos entre Dempassar, em Bali, a ilha hindu, e Maumere, na ilha das Flores, católica, no avião certo do dia 15 de Agosto, da Wings Airlines. A bordo um desdobrável com orações para ajudar muçulmanos, budistas, católicos, protestantes, hindus e confucionistas nas suas orações para uma viagem segura. Um documento precioso, que resume os diferentes credos que aqui coexistem. 



Aterrámos nas Flores e o universo mudou: onde antes estavam templos e esculturas hindus agora há "gerejas" e imagens de Cristo e de Maria, sua mãe; onde antes figuravam suásticas estão agora cruzes cristãs; onde as oferendas atapetavam o chão, estão agora belos ramos de flores, em campas frente às casas.

E se em Bali o hinduísmo tem influência budista, aqui o catolicismo que os portugueses trouxeram coexiste com várias cerimónias anteriores ao séc. XVI como, por exemplo, as realizadas na inauguração de uma nova casa, onde se sacrificam búfalos, porcos ou galinhas.
A este propósito é imperativo contar o seguinte episódio decorrido em Maumere: fomos visitar a casa da mãe do ultimo rajá de Sikka. É nesta casa da família Da Silva que se encontra guardado o tesouro mais importante legado pelos portugueses: o elmo, a armadura e pulseiras oferecidas ao primeiro rajá convertido ao catolicismo, em Malaca, onde recebeu o nome católico de Don Alexius Aleixo Ximenez Da Silva. Disseram-nos que olhar para estas peças com mais de 400 anos pode ser um privilégio dos portugueses, mas não sabíamos que esse olhar só seria possível após uma cerimónia que envolveria o sacrifício de um animal, cujo sangue, vertido sobe os objetos, aplacaria a fúria dos antepassados dos Da Silva. Porque não dispúnhamos de mais tempo (nem sabemos falar bahasa indonésio) acabamos por ficar-nos pela sala com as fotografias de Cristo e de Maria, sua mãe, ao lado do último rajá de Sikka, falecido na década de 60 do século passado.

Em Sikka, cidade costeira onde se instalaram os portugueses vindos de Bola e deixaram numerosa prole, cujos descendentes pululam por toda a ilha com os seus nomes Da Cunha, Da Gomes, Pareira, Carvalho e muito mais, falamos com o pastor Félix que nos ofereceu as letras das canções utilizadas no culto, em português de Sikka. É este crioulo de base portuguesa que se fala nesta região. Por isso, é com muito orgulho que, ao nos saberem portuguesas, começam a debitar os dias da semana (segunda-feira, terça-feira...), os seus próprios nomes, onde o primeiro é em latim, o segundo é de Sikka e o terceiro português, como Gregorius Tamela de Carvalho, ou só com dois nomes, como Agustinus Pareira, Estefanus da Gomez, ou Valentina da Gama... e palavras como cigarra, mesa, cadeira, escola, sapato, semana santa, pastor, missa... E topónimos como Lena, Paga, Sikka (de seca)...
Alguns casos são mais radicais, como o do Sr Bolldewyn Da Gama que nos disse
- Sou português, porque descendo de Agostinho Rosário da Gama, o primeiro missionário português de Sikka. 



Em Lela, perto de Sikka




Em Sikka, o largo da "gereja" construída pelos portugueses; ao lado, o cemitério, com muitos nomes lusos nas lápides



Em Sikka, casa do Pastor Félix, com o Sr Gregorius Tamela Carvalho


Com o Sr Bolldewyn Da Gama, português e embaixador da cultura de Sikka (como se nos apresentou), em sua casa, Maumere





Casas de alvenaria e padrões nos ikats com figuras de aves e de outros animais são considerados legados dos portugueses (os ikats são tecidos manualmente em teares verticais)






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