segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Flores de Lava

O Dr Roger há trinta anos que estuda uma das 14 tribos da ilha Palu'é. Assim que as suas aulas de antropologia numa universidade suíça permitem
 - Venho até ao meu povo.
Vem de avião até à ilha das Flores, zarpa do porto de Maumere no seu pequeno barco e depois sobe a pé o vulcão até à aldeia
- As comunidades geralmente escolhem sítios altos, protegem-se dos tsunamis... Eu é que já estou velho para tanto andar!
Tem a sua casa de bambu e colmo, faz o seu arac
- O arac é uma aguardente da seiva da palmeira. Cortam-se os frutos jovens pendentes de um ramo lateral e coloca-se um tronco de bambu a recolher a seiva que brota desamparada. Ao fim do dia, com o calor, já há muita bebida recolhida - líquido ainda mais precioso numa ilha sem água potável - ..e já fermentada. Bebemo-la assim, ou evaporamos e depois condensamos o vapor, para obter o arac.

Aquando da ultima erupção do Palu'é o Dr Roger estava na Suíça e recebeu um telefonema
- Venha. Ajude-nos a aplacar a fúria do vulcão.
O Dr veio imediatamente. Já todas as televisões e todos os fotógrafos de vulcões do mundo zuniam de volta do Palu'é. 
-Muitos búfalos de água serão precisos.
disse o Dr. E assim se fez. Reuniram-se todos os búfalos da ilha, Toda a comunidade se vestiu de gala e muito sangue foi derramado para satisfação do Palu'é.
No termo da cerimónia o vulcão parou. A terra deixou de tremer, a lava deixou de descer pelas vertentes. Não caíram mais cinzas sobre as casas esventradas.
-Conhece alguma técnica ou magia ou ciência ocidental que consiga parar um vulcão?
Perguntou-me o Dr Roger.
- Eu fui apenas um veículo da vontade dos ancestrais. O último chefe depositou em mim o conhecimento de como realizar esta cerimónia. E agora eu terei de ensiná-la ao seu filho. 

-Nós, os de Palu'é, acreditamos que quando o vulcão se ativa é porque no clã do chefe houve incesto. 
A lava flui desde o interior da terra, atravessa a base do vulcão, sobe à chaminé e volta de novo ao interior da terra, assim se passa com as pessoas, com o movimento do seu sangue, quando se unem homem e mulher, ainda mais se forem do clã do chefe, pessoas e vulcão são um só.
Ele e ela , sendo irmãos, assim unidos, o circuito de sangue é interrompido na cabeça, por isso se  rompe a lava na cratera do vulcão. 
Por isso todos sabemos que houve incesto e que foi praticado pelo filho do chefe com a sua irmã.

Pior agora, porque dei ao filho do chefe o meu dinheiro para reconstruir as casas destruídas pela cinza e pagar os ordenados das enfermeiras que deixei a cargo da pequena clínica ( a medicina chinesa conjugada com a antropologia resulta como uma benção). Confiei nele e nas palavras que me enviava por email a relatar as melhorias nas casas e na clínica. Chego cá e o que vejo? Construiu uma casa luxuosa aqui em Maumere. E as pessoas no Palu'é continuam sem casa e doentes. Por isso tenho reuniões agendadas com os chefes das outras 13 tribos. São eles que farão a justiça.

Depois da cerimónia que aplacou o vulcão, os habitantes desta tribo ficaram ainda mais próximos da sua tradição, e não querem deixar a terra para ir morar em campos de refugiados onde contraem tifo e tuberculose. Ora o governo regional das Flores e o bispo, sem desalojados do vulcão, podem ver reduzidos os financiamentos de Jacarta e das Cáritas para o realojamento das populações em Maumere, coisa que não querem... E por isso, eu, que estou a ajudar a desertificar os campos dos refugiados aqui em Maumere, sou persona non grata...
E agora vou para o quarto do hotel que os mosquitos estão a chegar.



No caminho entre Maumere e Ende encontrámos a Praia das Pedras Azuis!




Um café (não expresso) e ao longe mais alguns vulcões ativos como o Palu'é


Na floresta de bambus gigantes


Subida para recolher a seiva da palmeira, que bebemos, e que tem um paladar doce e perfumado


Aqui se destila a seiva da palmeira. No findar dos tubos, pinga o arac. Esta destilaria é explorada por uma comunidade oriunda da ilha de Sumba (outrora Ilha da Madeira), a sul das Flores.


Está senhora está a fazer empreita com palmeira, como nós fazemos, a diferença é que no Algarve utilizamos a palmeira anã.


Mais um fabuloso ikat, com motivos atribuídos à herança portuguesa


Praia de Ende, cidade muçulmana das Flores.  Ao longe Pulau Ende, a ilha onde chegaram os portugueses em 1560 e fizeram muitos conversos, à sombra da cruz de Cristo. Nela ainda se observam os restos da fortaleza construída pelo frade dominicano Simão Pacheco, em mau estado de conservação na sequência de um incêndio deflagrado pelo amor entre um padre, uma nativa e o capitão do forte...

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